3 grandes poemas de Wislawa Szymborska

72094a1c-faa4-477f-bebc-9ab863e57f5e

 

 

A Vida na Hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

 

Os Filhos da Época

Somos os filhos da época,
e a época é política.

Todas as coisas – minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.

Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra – político.

Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.

Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.

Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.

Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.

Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

 

Escrevendo um currículo

O que é preciso?
É preciso fazer um requerimento
e ao requerimento anexar um currículo.


O currículo tem que ser curto
mesmo que a vida seja longa.


Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
Trocam-se as paisagens pelos endereços
e a memória vacilante pelas datas imóveis.


De todos os amores basta o casamento,
e dos filhos só os nascidos.


Melhor quem te conhece do que o teu conhecido.
Viagens só se for para fora.
Associações a quê, mas sem por quê.
Distinções sem a razão.


Escreva como se nunca falasse consigo
e se mantivesse à distância.


Passe ao largo de cães, gatos e pássaros,
de trastes empoeirados, amigos e sonhos.


Antes o preço que o valor
e o título que o conteúdo.
Antes o número do sapato que aonde vai,
esse por quem você se passa.


Acrescente uma foto com a orelha de fora.
O que conta é o seu formato, não o que se ouve.
O que se ouve?
O matraquear das máquinas picotando o papel.
Anúncios

6de163f3-dc99-4262-b710-7e282f007cc1

 

“Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E achei-a amarga – E injuriei-a.”

el norte de la isla del sol

O dia na parte norte da ilha começa bem cedinho. A Isla del Sol é a maior dentre as mais de 40 ilhas do Lago Titicaca. Ali, o sol parece muito próximo. Os turistas desavisados que acreditam que o sol é inofensivo devido às baixas temperaturas e vento forte, no dia seguinte percebem que cometeram um grande equívoco ao subestimar a força do sol em uma ilha a 3.800 m. de altitude.

A maior parte da população é de origem quéchua e aymara. Os habitantes mantém suas línguas ancestrais e poupam o espanhol para ser usado apenas com os turistas. Encontrei uma criança que me acompanhou até a casa de uma família que alugava quartos na ilha (lá os moradores alugam seus quartos para os visitantes que desejam passar algum tempo junto à comunidade). Perguntei ao menino de, aproximadamente, 10 anos de idade qual era a língua que ele falava com os amigos. Ele respondeu: – Hablo aymara. Solo hablamos español con ustedes. Puedes seguir hablando en español, lo entendemos bien.

Os residentes já estão acostumados à presença dos muitos turistas que decidem se aventurar por águas bolivianas. Os viajantes, assim que chegam, percebem que estão em um lugar de quietude e de grande importância na cultura latino-americana.

 

2016-08-23 00.58.252016-08-23 01.12.36

Dos muitos europeus que chegavam, alguns poucos latino-americanos se reconheciam e se agrupavam. Peruanos, bolivianos, argentinos, brasileiros, todos nos encontrávamos e, instantaneamente, começávamos uma amizade. Cantávamos, ríamos, dividíamos comida e conversávamos sobre o quão simbólico era o nosso encontro justo ali, onde nossos antepassados construíram suas civilizações.

2016-08-05 12.59.202016-08-05 12.35.13g6DA7Sed

Em uma noite de agosto, enquanto bebíamos vinho e cantávamos em frente ao lago, a luz se apagou em toda a ilha. Escutávamos apenas o barulho da água e víamos apenas o céu estrelado. Todos ficamos em silêncio até que o peruano falou:  Puede ser que nuestros ancestrales estén muy contentos por nuestro encuentro.

Todos agradecemos em silencio.

 

 

pachamama

Em agosto, em boa parte da América Latina, Pachamama (ou mãe terra) é reverenciada. Uma senhora boliviana me disse que no dia 1º a terra se abre para receber nossos agradecimentos e clamores. As senhoras preparam as oferendas solicitadas pelos devotos que fazem fila no Mercado de las Brujas, em La Paz. O Palo Santo é queimado nas ruas. A cidade inteira canta, pede, agradece.

6c508d9f-868b-41ce-8977-b7fb028d99ac

aff56a15-65ec-46fa-9562-7ffc6cce0b3b